Moçambique: Legalizar o consumo de 'soruma', sim ou não?
18 de agosto de 2024Em Moçambique já se fala na possibilidade de se legalizar o consumo de cannabis sativa, conhecida localmente como soruma.
O debate ganhou força depois de o Presidente da República, Filipe Nyusi, ter apelado a uma "profunda reflexão" sobre a legalização da soruma, citando os seus efeitos nefastos.
Celma Ricardo, vice-presidente da Associação Braços Abertos, que trabalha com jovens e adolescentes dependentes de drogas, sublinha que o consumo de cannabis está associado a graves problemas de saúde mental.
"Precisamos pensar seriamente sobre isto. Se for legalizado, é imperativo que haja uma monitorização rigorosa do seu consumo. Caso contrário, enfrentaremos graves problemas de saúde pública", adverte.
Também Rui Mendes, psicólogo clínico, concorda e acrescenta que Moçambique ainda não está preparado para aprovar uma lei que descriminalize o consumo de soruma.
"Deve haver uma preparação adequada que inclua a disseminação de informação e a sensibilização da população através de conferências, palestras e seminários com profissionais experientes. Só assim poderemos preparar o povo para as consequências de uma eventual legalização," acautela Mendes.
Proibido VS livre arbítrio
Por outro lado, Rui Mendes lembra que "quando se abre esta janela - em se permite legalmente fazer algo - já não há o despertar de querer experimentar [por ser proibido]".
"Aí vem o livre arbítrio. Eu experimento, sim, e se eu experimento, o que vai dar, é bom para mim, então há-de haver mudança de mentalidade”, explicou.
Celma Ricardo também salienta que, embora a cannabis tenha usos medicinais, a descriminalização poderia levar muitos jovens a envolver-se no seu comércio e consumo. "Se eu sou um vendedor, vou sempre procurar clientes, e muitos jovens e adolescentes serão atraídos para o consumo e para a venda de droga. Isso poderá resultar na proliferação de vendedores de droga em escolas e outros espaços públicos, porque a droga passará a ser lícita," alertou.
A Associação Braços Abertos, além de trabalhar diretamente com jovens, apoia também as famílias de dependentes de drogas.
"Vamos a casa destas famílias primeiro para consciencializar que se trata de uma pessoa doente. Porque muitas vezes o que acontece é que as famílias acabam por tirar de casa este doente porque rouba, é agressivo", conta Celma Ricardo.
A vice-presidente da Associação Braços Abertos conclui com uma nota de preocupação: "A partir da cannabis se a pessoa não tem aquela sensação do primeiro consumo, claramente vai procurar outras drogas para sentir o prazer que sentiu da primeira vez".